Antes do ‘recente ‘boom’ do turismo, um português e um holandês juntaram-se para criar um projeto especial em Vila de Rei.

Na Albufeira de Castelo de Bode, está prestes a abrir portas uma Herdade que nasceu da colaboração estreita entre dois países que se têm vindo a aproximar nos últimos anos.

O holandês Raymond Klomp e o português Nellson Soares são as faces da Herdade Foz da Represa, um projeto único criado depois de anos de trabalho e que surge numa época em que o turismo português está na moda.

Na recente visita dos reis da Holanda a Portugal, ambos os empresários foram convidados para o encontro que visava a melhoria das relações comerciais entre Portugal e a Holanda, e o Economia ao Minuto teve oportunidade de falar com os promotores.

Veja na entrevista abaixo as respostas dos empresários, que abordam as dificuldades de investir em Portugal – e na albufeira de Castelo de Bode em particular – bem como o impacto da recente vaga de turismo no mercado imobiliário e no país em geral.

Quando estavam à procura de locais para investir, foi o Nelson que convenceu o Raymond a apostar em Portugal?

Não, o Raymond, tinha já contacto com Portugal, em particular com o Centro de Portugal e é proprietário de outros terrenos e propriedades na zona. Desde 2010 que procurávamos uma propriedade com potencialidades para o turismo, na região centro, e acabamos por em 2012 casualmente ‘tropeçar’ na Herdade.   Depois de um dia cheio de visitas a propriedades, o promotor imobiliário falou-nos de um terreno nas margens da albufeira, no fundo do vale, sem acessos e, por isso mesmo, “pouco atrativo”, dizia ele. Todavia, foi paixão à primeira vista, o cenário era (e é) absolutamente magnífico, sendo que o isolamento contribui decisivamente para o seu ‘appeal’, a fauna, a flora, ali mesmo junto às águas da Albufeira de Castelo de Bode, mesmo ao lado das cascatas naturais e a 600 metros da praia fluvial do Penedo Furado. Trata-se de um local muito especial e com imenso potencial…

Quais foram os principais desafios que encontraram quando quiseram construir o resort?

Os desafios têm sido muitos. Em Portugal, construir nas margens de uma albufeira é algo complexo, mas construir nas margens da Albufeira de Castelo de Bode é uma verdadeira aventura épica imprópria para cardíacos! Note-se que a Albufeira de Castelo de Bode fornece a água potável para toda a região da Grande Lisboa e por assim ser, é um espaço sujeito a uma legislação que a protege de forma excecional.  Para poder chegar ao momento em que hoje nos encontramos, o nosso processo teve que ser considerado como de Interesse Público pelo Município de Vila de Rei, passar pelo Conselho de Ministros, ser aprovado na Assembleia e publicado em Diário da Republica, o que efetivamente aconteceu. Na sequência de todo esse longo e complexo procedimento, e até ao dia de hoje, todos os ‘passos’ e ‘momentos’ têm sido detalhados, analisados e visados pela APA [Agência Portuguesa do Ambiente].  Tem sido um processo que, além de longo, tem implicado muita força de vontade em fazer, assim como compromisso, envolvimento e energia. Isto além dos óbvios e elevados custos financeiros.  Ainda assim e apesar de todos os pesares, é um projeto que acreditamos que vai inovar e trazer algo de novo, diferente, a uma região que bem necessita quer do investimento quer da visão de alguém que veja além da óbvias limitações problemáticas da interioridade – no caso o ‘downside’ é mesmo o nosso ‘selling point’.

Fizeram parte da comitiva que reuniu com a família real Holandesa na semana passada. Como correu o encontro? 

Efetivamente foi um momento especial. No decurso destes cinco anos de ‘problem solving’, houve momentos em que se recorreu à Embaixada da Holanda para mediar, acompanhar e/ou apoiar a resolução de algumas etapas. Daí surge a nossa ligação à Embaixada. No contexto da Visita de Estado do Rei e da Rainha acompanhados por uma comitiva/missão que visava desenvolver e estreitar, nomeadamente, relações comerciais aconteceu o convite – para nós o reconhecimento do muito trabalho e esforço.  Foi um momento fantástico, uma oportunidade de contactar com o casal real, assim como estabelecer relações e contactos com  diversas pessoas, empresas, entidades, potenciais clientes… Foi uma oportunidade que abriu algumas portas e janelas.

Como se pode criar uma relação mais eficaz entre a economia holandesa e a economia portuguesa? Quais são os setores onde a colaboração pode resultar melhor?

A Holanda é conhecida como ‘laranja mecânica’ e penso que Portugal poderia aprender e beneficiar muitíssimo, a vários níveis, caso se aprofundem relações/laços. Mas este é um movimento obviamente recíproco.  A Holanda tem muito a ‘ensinar’ em termos de planeamento e organização, algo que é transversal na cultura de negócios holandesa. Já Portugal, pode ‘ensinar’ a sua/nossa informalidade, capacidade de acolher de braços abertos e de fazer bem – que também o fazemos – Turismo/Hospitalidade, Vinhos e produtos artesanais endógenos: falamos de azeites, vinagres, queijos e enchidos, méis e compotas, águas (sim águas minerais, que temos em quantidade e qualidade! Hoje em dia podemos já oferecer uma excelente carta de águas, tão exclusiva como a de vinhos, etc). Penso que Portugal é um país cheio de oportunidades, o nossa principal falha tem sido não saber vender fora de portas a excelência dos nossos produtos – algo que os holandeses fazem de forma eximia.  Uma parceria sinérgica entre estes dois mundos poderia trazer imensos benefícios para ambas as nações.

Porque escolheram a zona de Vila de Rei como local de construção em vez de Lisboa ou do Porto, zonas que hoje em dia estão mais na moda? 

Como mencionei anteriormente, pretendíamos criar um espaço no Centro de Portugal.  Escolhemos o Centro porque a ‘interioridade’ tem mantido este Centro genuíno e autêntico. Efetivamente, a zona pode ainda promover e proporcionar experiências singulares, únicas, apresentar o que Portugal tem de melhor para oferecer, num espaço longe dos ‘ruídos’  e ‘tempos’ da cidade. Em Vila de Rei a vida ainda corre devagar, ainda há tempo para fazer bem, fazer com tempo, com dedicação, com interesse, gosto e sabedoria. O luxo de fazer bem é possível e nota-se nos cheiros, cores e sabores. Este é o Portugal de que os turistas ouviram falar, que todos querem experimentar mas que muito poucos conseguem. A diferença entre moda e estilo é hoje como ontem, a qualidade. A qualidade vende sempre em Lisboa, no Porto ou em Vila de Rei.

O mercado imobiliário nas grandes cidades portuguesas tem vindo a ficar cada vez mais caro. Vêm esta evolução como um ponto positivo ou negativo para os investidores? E para os habitantes? 

Efetivamente, é uma consequência da pressão do turismo e é um problema grave que tem que ser gerido. Cidades vazias, sem residentes, descaracterizadas, sem vida não ‘vendem’. A ausência de uma gestão adequada pode mesmo ‘matar’ a galinha dos ovos de ouro. Há investimento enquanto haja procura/interesse e vise/versa, há que procurar um equilíbrio como em tudo na vida.

Tendo em conta que o Nellson é português e o Raymond é holandês, vão dividir-se pelos dois países para ajudar a gerir a Herdade Foz da Represa? 

A ideia é a de fazer a gestão localmente. A nosso máxima é pensar global e agir localmente. Há que compreender o mundo que nos rodeia, para que se possa agir, reagir e ajustar o negócio.

 

Fonte: https://www.noticiasaominuto.com/economia/887558/herdade-foz-da-represa-uniao-portugal-holanda-para-apostar-no-centro